Coragem? Não, na internet você precisa aprender a ser ignorado

Esses dias recebi de última hora um convite pra um programa de TV ao vivo aqui em Cascavel. O convite inicial era pro meu diretor, que não podia ir e me colocou no lugar dele. Eu fui, apesar de relutar bastante por odiar televisão.

Vários convidados e um tema central difuso em meio a jogos surpresa e comerciais repentinos.

Antes do programa iniciar, recebi três perguntas que me seriam feitas sobre conteúdo digital. Outro convidado falou sobre marketing e uma mulher, que era atração da noite, discorreu sobre polêmicas que podem ser criadas pela interwebs.

Nenhuma das perguntas que me enviaram antes do programa foram feitas, mas achei boa ideia responder uma delas aqui:

Que coragem é necessária pra publicar conteúdo na internet?

Talvez essa questão tivesse o objetivo de mostrar o produtor de conteúdo como um desbravador — como se um social media fosse um bandeirante em plena era das navegações.

Mas pensei por um longo tempo nessa pergunta (vinte segundos) e cheguei a uma conclusão:

O fato é que você não precisa de coragem nenhuma pra publicar textos e vídeos na internet. Você precisa é aprender que, no meio de um mar de conteúdo, você provavelmente vai ser ignorado.

Você precisa de coragem pra lidar com haters, mas dificilmente os terá

Eu entendo que soa assustador lidar com uma horda de odiadores ferozes sedenta pelos seus caracteres. Mas até chegar no momento de ganhar haters você já vai ter percorrido uma estrada enorme.

E inclusive costumo dizer que tê-los é sinal de sucesso (ou de que você é babaca, mas sou um otimista).

Por quê?

É nítido que a polarização alavanca a popularidade de pessoas e pautas. O Ruud Koopmans, sociólogo holandês, fala sobre esse fenômeno polarizador, que pode ser observado em protestos, eleições e até em coisas mais simples, como conteúdo na internet.

Quando alguém diz que odeia algo que você gosta, você se sente movido a defender o que gosta, porque é como se o hater te ofendesse pessoalmente. É só falar mal de qualquer banda adolescente pra comprovar isso.

Quando alguém defende algo, acaba se apegando ainda mais a esse algo. E o ciclo se repete.

Leia os comentários de canais menores e comprove: todos os amam

Agora experimenta sair de um canal grande e dar atenção a um canal menor. Todos amam o canal pequeno. Ele tem vários fãs que acompanham o conteúdo, e esse conteúdo dificilmente vai atrair haters (não tem graça destilar ódio contra algo quase irrelevante no quesito público).

Se você comentar no meu texto, dificilmente vai ser um xingamento (mas, se for, pode mandar). Você vai elogiar, agradecer ou no máximo discordar educada e civilizadamente.

Mas…

Os canais minúsculos, por outro lado, não são amados nem odiados

Se você descer outra camada vai entender o ponto do meu texto: aqueles canais pequenos, aqueles blogs minúsculos, aqueles perfis de Twitter quase anônimos. Aquele conteúdo que não tem comentários. Que quase não tem visualizações.

Quantos produtores de conteúdo assim você conhece? Além dos seus amigos, poucos, eu garanto. Não porque eles existem em menor número, mas porque são tão irrelevantes que você sequer sabe de sua existência.

E, quando você começa a produzir conteúdo pra internet, isso é o que você é: nada.

Você é um nada em busca de ser alguma coisa

Eu produzo conteúdo pra internet há uns cinco anos e percebi uma coisa:

Produzir conteúdo pra internet, pra maioria das pessoas, é um trabalho de Sísifo: é como rolar uma pedra enorme pro topo de uma montanha só pra, do topo, deixá-la rolar montanha abaixo e, em seguida, repetir o trabalho.

Há quem fique chateado com isso. Há quem ache uma benção. Há quem não esteja nem aí.

Isso porque os perfis de produtores são diversos: existe o cara que tem um Twitter só pra desabafos pessoais, como eu; tem quem use o Twitter comercialmente em busca de vendas; há quem crie entretenimento na rede social do passarinho em busca de fama.

Você precisa entender que, enquanto você tenta educar de forma séria seu público com informações relevantes, tem um cara ocupando o mesmo espaço que você, só que falando sobre bandas de k-pop e contando detalhes desnecessários sobre a própria rotina intestinal.

Em 1994, havia menos de três mil sites na internet. Em 2014, esse número passou de um bilhão.

A quantidade de conteúdo não aumentou proporcionalmente com o público. Hoje, todos que habitam a internet produzem conteúdo. Simplificando, é como se fosse assim:

Antes:

  • x produtores
  • 100x consumidores

Agora:

  • 100x produtores
  • 100x consumidores

Então é natural que uma maioria MASSIVA do conteúdo produzido na internet não saia nem de um círculo fechado de amigos e parentes, sendo completamente ignorado.

E pra quem leva a produção de conteúdo a sério, como eu e provavelmente você, não existe nada mais doloroso do que a indiferença. Não existe coisa pior que mandar um e-mail pra 300 pessoas e não gerar UM clique, não receber UMA resposta (nem que fosse um xingamento).

Por isso, respondendo à pergunta: não, você não precisa de coragem. Você precisa é aprender a ser ignorado.

É, eu sou meio negativo. Eu gosto de reduzir as expectativas. Tem a ver com antifragilidade, mas sobre isso eu falo depois. Quero responder uma pergunta que os mais ingênuos talvez se façam:

Isso significa que você vai ser ignorado pra sempre?

Se você tá aqui, é porque eu saí dessa de ser ignorado. Meu blog não recebe muita atenção, mas eu já não sou completamente ignorado. Talvez você não comente meu texto nem fale comigo nem se inscreva na minha newsletter, mas você me deu alguma atenção.

E, se chegou até aqui, é porque tem alguma esperança de não ser ignorado com o conteúdo que tu produz.

Eu acredito que existam alguns pilares para um conteúdo sair da zona da indiferença pra realmente mexer com quem lê. Nesse texto aqui, eu falo quais são esses pilares e digo quais elementos que tornam seu conteúdo ignorável, para você evitá-los.

Se você quer algum norte, sugiro que leia. Já é alguma coisa. A partir daqui, tudo que vier pra você é lucro.

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