Babaquice: o marketing digital mais eficiente

Volta e meia converso com meu diretor sobre quão lento é o crescimento usando marketing digital quando se tem pouca verba e não está disposto a ser um completo irresponsável.

A cada dia percebo que existem duas formas fáceis e altamente lucrativas de se promover na internet:

  1. Polêmicas e discursos que dividem opiniões.
  2. Discursos que reduzem temas complexos a afirmações simplórias e infundadas, mas de fácil assimilação.

E esse pessimismo cresce em mim quando percebo como a internet lida com polêmicas como as da Empiricus, que, independente da crise de imagem pela qual passe, sempre sairá beneficiada. E, se ninguém corrigir o discurso infundado que o Thiago Nigro dissemina — de que morrer pobre é uma escolha —, ele seguirá alcançando mais e mais pessoas porque suas afirmações são fáceis de entender e tem zero complexidade.

A informação é antifrágil — quanto mais você a ataca, mais força ela adquire e mais pessoas ela alcança, seja ela verdadeira ou falsa. E a galera do marketing tá bem familiarizada com esse conceito exposto nos livros do Nassim Taleb.

Mas por que é dessa forma?

Bom, eu tenho uns palpites.

A reação que mais engaja é o ódio

Basta abrir uma caixa de comentários qualquer para se deparar com xingamentos, palavrões, calúnias e difamações — entre pessoas comuns da web.

E existe uma total assimetria entre dois tipos de caixas de comentário: a de comentários elogiosos e a de haters. Os haters aparentam ser muito mais numerosos.

Por quê?

Emoções negativas geram muito mais engajamento que emoções positivas.

De forma prática, a situação se desenrola da seguinte forma:

  1. Influenciador X posta algo.
  2. Fãs Y xingam a postagem do Influenciador X.
  3. Fãs X defendem Influenciador X.

Essa polarização faz com que a informação, devido ao seu caráter antifrágil, chegue a mais pessoas.

Mas não seria a defesa dos fãs X uma reação de amor?

Normalmente não, e isso é percebido pelo caráter das defesas, que é mais de ataque. Eu poderia trocar a frase “Fãs X defendem Influenciador X” para “Fãs X atacam fãs Y, defendendo Influenciador X por tabela”.

Os indivíduos se unem aos grupos por fatores de identificação e é comum que essa identificação ocorra por causa de sentimentos negativos, como a raiva.

Então a forma mais fácil de gerar engajamento em redes sociais entre nós adultos é a raiva. E isso não sou eu que estou falando.

No livro “Dez argumentos para deletar agora suas redes sociais”, Jaron Lanier mostra como o ódio é latente em nossas relações virtuais:

“Emoções negativas, como medo e raiva, vêm à tona mais facilmente e permanecem em nós por mais tempo do que as emoções positivas. Leva-se mais tempo para construir confiança do que para perdê-la. Reações de ‘luta ou fuga’ ocorrem em questão de segundos, e pode levar horas até que a pessoa volte ao estado de relaxamento.”

[…]

“A maldade se tornou também a matéria-prima de empresas de mídia social e outros impérios de manipulação de comportamento que rapidamente passaram a dominar a internet, porque impulsiona o feedback comportamental negativo.”

Em suma, o ódio é lucrativo.

Mas aqui não tô falando de grandes corporações. Quero falar de como pessoas comuns, tipo eu e você, chegam ao êxito na venda de infoprodutos de formas altamente questionáveis.

Então, sabendo disso, vamos ao ponto.

Raiam dos Santos e o “CAC=0”

Raiam dos Santos, um influenciador digital conhecido pelo discurso agressivo e debochado, usa a controvérsia e a polarização como forma de obter seguidores e clientes. Se gabando de suas tiradas polêmicas e por criar tretas com outros influenciadores e com qualquer público, ele chama a prática de “CAC=0”.

Ou seja, ele cria uma polêmica para ter um Custo de Aquisição de Cliente zero.

Como? Um exemplo do modus operandi:

  1. Fala mal de um influenciador.
  2. O influenciador se dói e responde.
  3. Quando responde, o público do influenciador vai despejar ódio no Raiam.
  4. Seguidores do Raiam despejam ódio de volta.
  5. Os novos haters do Raiam o acompanham pelo ódio e, por causa do conteúdo que muitas vezes é útil, acabam se tornando admiradores e clientes.

Quando não fala mal de influenciadores, tal qual fez por muito tempo Nando Moura — que ganhou notoriedade xingando Cauê e PC Siqueira e hoje colhe os frutos com seu curso online —, Raiam cria polêmicas na internet com o próprio público que ora se irrita, ora o defende.

Na copa da Rússia, afirmou ter entregado uma camisa brasileira falsa a um russo para receber em troca uma camisa russa original. O público enfurecido fez Raiam alcançar mais pessoas, tendo um recorde de vendas de seus livros. Posteriormente, alegou que a camisa era verdadeira e que tudo não passava de um “experimento social”.

Essa forma de obter seguidores é muito eficaz pelo alcance. Mas, pra praticá-la à la Raiam, é preciso abrir mão de alguns princípios básicos. Os comentários polarizadores que o alçaram à subfama flertam, em parte, com uma forma bizarra de enxergar as mulheres e uma postura propositalmente machista. O primeiro deles, na Rússia, foi em cima de uma mentira (se a camisa era falsa, era mentira; se era verdadeira, a mentira foi na legenda).

E, pros que acabam o admirando, isso não parece ser condenável. O Raiam, por sua vez, se gaba da prática.

O problema real não é a polêmica, é a babaquice

O grande problema não é falar mal de práticas condenáveis e alcançar novos públicos dessa forma. O Raiam denuncia muitas pirâmides financeiras e fala mal de alguns influenciadores irresponsáveis, e nunca me pareceu do tipo que vende o que não pratica. Não dá pra acusá-lo de hipócrita (e às vezes é esse o problema).

Mas, como vemos em inúmeras controvérsias internet afora, o problema maior é as abordagens polarizadoras serem em grande parte agressivas, misóginas, preconceituosas, desonestas ou falaciosas.

A Startup da Real já respondeu tweets do Flávio Augusto. Ele se doeu, alguns o defenderam, alguns tomaram o lado da Startup da Real. E isso trouxe um novas pessoas simpatizantes ao perfil dela. Nada de errado nisso, por causa da abordagem, e é natural que aconteça em discussões na web.

Mas, quando Raiam dos Santos usa piadas sobre o próprio órgão genital (coisa que se encontra em mesa de quinta série) e sobre mulheres pra se promover em cima de um “personagem” divisor de opiniões, aí temos um problema.

Quando a Bettina mascara a forma real de obter sua fortuna e usa uma falácia argumentativa pra vender o produto da Empiricus, em seguida se alavancando em cima da polêmica, aí temos um problema.

E é um problema muito lucrativo.

Inclusive, às vezes o discurso não polariza de imediato, como nas propagandas da Empiricus. Mas ele ganha alcance pelo outro motivo: por tornar simplórios assuntos complexos.

Outra forma de babaquice e marketing gratuito

Quando o Primo Rico diz que morrer pobre é uma escolha, ele o faz porque seu público, acostumado a ver “cases de sucesso” como Ricky Chesther, concorda sem pensar duas vezes. Esse discurso irresponsável é endossado pela sua audiência, que aparenta não refletir muito sobre o que consome.

Você acha que um anúncio no YouTube dizendo que o caminho pra viver de renda envolve muita sorte se você for pobre, além de inúmeras variáveis, emplacaria?

Só se fosse polarizador, tipo a Startup da Real.

É por isso que coaches, professores de educação financeira, vendedores de infoprodutos e outros profissionais usam afirmações como essa pra sustentar o próprio discurso, sendo de fácil disseminação pela simplicidade.

Uma dor, uma solução e um produto. Sem entrelinhas, sem aprofundamento e sem questionamento crítico sobre as implicações do discurso assimilado por pessoas ingênuas.

Mas qual é a forma correta de lidar com esse tipo de marketing?

Eu evito emitir opiniões pessoais e julgamentos morais no que escrevo (embora nem sempre o faça). Se eu quisesse me promover em cima do nome das pessoas acima, bastava economizar caracteres e usar palavrões pra ofender pessoalmente cada um deles.

CAC=0.

Então como lidar?

Bom, em casos como o do “morrer pobre é uma escolha”, a solução é expor dados e fatos que comprovam o contrário, discutindo o assunto.

Mas, quantos às polêmicas…

Não sei se há uma solução definitiva e esse tópico em si mesmo divide opiniões. Há quem diga que é melhor ignorar. Outros dizem que ignorar é compactuar.

Eu, particularmente, evito dar palco pra esse tipo de conteúdo pois sei que a pior dor pra quem produz é ser ignorado. E, sim, meu artigo tem potencial polarizador e eu talvez esteja errado em citar nomes (mas eu não tô xingando ninguém e não tenho pessoalmente nada contra nenhum dos citados, a não ser contra a Startup da Real, porque nunca tomou café comigo).

No geral, porém, quando o maluco começa a dançar eu prefiro gentilmente me retirar da plateia.

E de uma coisa eu tenho certeza: cuspir babaquices é a forma mais eficiente de marketing gratuito e te leva a lugares inimagináveis. Em alguns casos, à cadeia. Em outros, à presidência.

E vida que segue.

2 comentários em “Babaquice: o marketing digital mais eficiente

    1. Valeu, João! Só não penso mais porque tenho medo de enlouquecer. Fico feliz que tenha gostado do texto 😀

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