Dicas de escrita estão tornando teu conteúdo uma bosta

Não adianta imitar o sotaque alheio

Se você quer aprender a se comunicar melhor, vai ser muito útil entrar em um curso de oratória. Mas não precisa ser muito esperto pra entender que não existem fórmulas pra falar.

Você pode tentar imitar o sotaque e os trejeitos do seu professor. Só que, numa apresentação, não vai demorar pra sua máscara cair e te acharem idiota.

As dicas de comunicação não excluem sua voz e personalidade. Isso é óbvio.

Então me explica: por que as pessoas seguem dicas de escrita que padronizam textos e excluem a própria voz?

Se você segue um padrãozinho recomendado pela autoridade de SEO, é bem provável que você fique parecendo tão idiota quanto o aluno que imita o sotaque do professor.

Informação ou só barulho?

Uns meses atrás, eu tava trabalhando num ebook pra certa empresa. Na etapa de revisão, eu recebi o feedback mais curioso da minha curta carreira. Ele pedia pra eu alterar a palavra “mas”, porque “segundo a PNL…”

Ele não disse que eu tava sendo repetitivo. Eu entenderia — seria um erro meu mesmo.

Ele disse que a PNL… meu Deus.

É isso que as dicas de escrita criativa de marketing criaram. Uma massa de profissionais que acha, realmente, que a palavra MAS vai tirar uma pessoa do texto. Que isso vai ter uma BAAAAITA influência na absorção do conteúdo.

Aí junta a PNL com uma série de pesquisas e estatísticas de origem duvidosa, e você tem um checklist de texto:

  • Não usar a palavra “mas” porque a PNL diz que causa um efeito indesejado;
  • Parágrafos de no máximo duas frases porque 78,6% saem do texto se houver parágrafos maiores;
  • Não utilizar proparoxítonas pois, segundo a Pesquisa De Origem Duvidosa, 87,23% dos leitores tem ojeriza a ela.

Se uma pessoa sai do seu texto porque ele tem um parágrafo de quatro frases, é porque seu leitor não tá tão a fim de ler assim. Isso provavelmente não ia mudar se ele chegasse até o final.

Ou teu conteúdo é uma bosta.

Mas vamos por partes.

Breves comentários sobre 4 dicas de escrita criativa

1. “Use frases e parágrafos curtos”

Eu não tô dizendo pra você escrever orações e períodos extremamente longos e prolixos sem que haja uma pausa sequer pra que o leitor respire entre uma frase e outra frase e um parágrafo e outro parágrafo sem ligar pro cansaço que isso causa até em textos muito bons em conteúdo…

RESPIRA.

É bom saber usar pontuação. Mas pontuar em tudo não é. Escrever assim é sabe o quê? Irritante. Simplesmente. Deixa a leitura quebrada. Como se o teu texto tivesse asma. E olha que eu tenho asma.

Você precisa entender que a pontuação dita o ritmo de um texto. Eu sugiro ler tudo em voz alta pra entender como vírgulas, pontos e quebras de parágrafos influenciam o entendimento de um artigo.

2. “Divida o artigo em tópicos”

É ótimo que seu texto seja dividido em tópicos. No geral, as subdivisões em H2 e H3 servem pro Google entender bem qual é o assunto do seu texto e pra que quem entre nele possa ir direto ao ponto que interessa, sem precisar ler tudo.

Mas, se você quer que seu artigo seja lido por inteiro, é mais interessante aprender a escrever de forma instigante.

Você não precisa seguir os mesmos padrões de listas e tópicos formatados pra SEO. São recomendações que a galera inexperiente enxerga como regra.

Alguma inteligência artificial vai substituir em breve esses redatores sem um pingo de originalidade que aprenderam sobre estrutura em algum artigo de “5 dicas para seu texto ser escaneável e achado pelo Google”. É só ir no Google pra ver que são todos iguais — em conteúdo, linguagem e estrutura.

3. “Escreva conteúdos curtos”

Isso vai depender do conteúdo. Artigos como esse meu não precisam se alongar. E se forem chatos, você vai desistir já no começo.

Outros textos, como os da Startupdareal, são extremamente longos pros padrões atuais, mas são instigantes e abundantes em conteúdo de um jeito que vicia mais que Coca-Cola no almoço.

Não seria assim se ele escrevesse textos no padrão “5 mentiras que você precisa saber sobre o mundo de startups”.

4. “Conteúdos longos são priorizados pelo Google”

Essa, na contramão da anterior, é igualmente clássica. Mas partamos de um princípio: o algoritmo do Google não tenta ditar o que é bom ou ruim. O algoritmo do Google tenta entender do que eu e você gostamos.

Não adianta encher linguiça em texto que devia ser um parágrafo. O algoritmo é aprimorado pra entender do gostamos e o que nos é útil — às vezes, vai ser um artigo longo; às vezes, curto. Tudo depende da necessidade e da substância.

O erro das empresas contratantes e dos redatores amadores

Digamos que você tenha uma empresa e queira contratar um redator.

Se a empresa contrata um redator pelo número de palavras, priorizando o que o SEO sugere e com medo do epidêmico déficit de atenção que acomete a humanidade, ele vai te entregar aquele texto. Mas é bem provável que ele faça como todos os redatores: dizer a mesma coisa, repetidas vezes e de formas diferentes, só pra reforçar um ponto.

Se você quer volume, é isso que você vai ter. Se você quer conteúdo, sua empresa tá com as prioridades erradas e não sabe comunicar isso num briefing.

Quando se fala sobre textos e os aspectos que o envolvem — pontuação, tamanho, detalhes — saiba que todas as dicas dependem. Dependem de uma série de fatores.

Mas, em todos os casos, o conteúdo prevalece sobre quaisquer desses detalhes.

Por fim: O que realmente importa?

O ponto é: não é que essas dicas e estatísticas não sejam interessantes. Elas são úteis pra que você entenda que pequenos detalhes fazem diferença nos seus textos.

Mas você precisa entender que, antes de mais nada, você precisa ter conteúdo pra transmitir. E, em segundo lugar, precisa aprender a estruturar esse conteúdo de forma instigante — e eu não tô falando de fazer artigos enumerando tópicos no estilo “5 dicas para fazer X”.

A influência desses microdetalhes, embasada porcamente por ciência tabajara ou por estatísticas concretas, é ínfima perto desses dois fatores principais.

Então antes de ficar emocionado com uma estatística nova sobre escrita e atenção, se certifica de que você é expert em textos legais. E que tem muito conteúdo pra passar.

Você precisa adquirir poder de síntese. Você precisa ter sua própria voz — ou tá condenado a imitar o sotaque alheio pra sempre, igual todo produtor de conteúdo incompetente.

E deixa eu te falar: dificilmente alguém atinge esse equilíbrio. Eu, por exemplo, não tenho muito conteúdo pra passar. E escrevo de um jeito chato e arrogante. Peço perdão pelo transtorno.

Mas, já que você já tá aqui, vou te recomendar um texto que vai te ajudar a escrever bem melhor. É só clicar aqui.

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