O marketeiro digital que vende marketing digital: a pirâmide dos gurus

O artigo definido no título dá a impressão de que vou falar sobre uma pessoa específica, mas inúmeras devem vir à sua mente. O Érico Rocha, um dos caras mais bem sucedidos financeiramente do marketing digital e possível originador da febre, é um que vende o marketing digital.

Marketing digital não é só a área de atuação dele nem apenas a estratégia de mídia. É o produto.

E por mais que isso seja necessário (todo mundo precisa de um professor), o que se segue é um ciclo vicioso:

Entusiastas se espelham tanto no Érico Rocha e em outros gurus do tipo que, em vez de atuarem no marketing digital em seus respectivos nichos, acabam aprendendo o marketing digital pra vender o marketing digital, criando uma pirâmide de gurus.

O termo pirâmide, polêmico, parece exagerado, mas é o que acontece:

Os novos adeptos da seita do marketing digital (ou do marketing de afiliados, a nova febre) já se apressam a criar ebooks com a quantidade infindável de sabedoria marketeira que adquiriram no livro do Érico Rocha ou num ebook de outro qualquer. Sendo que todo esse conhecimento é só um eco do que já existe há mais de uma década.

Os novos adeptos pagam os mais antigos.

Então o caminho que eles seguem é o bem semelhante:

  1. Assistir a um curso. Ou nem isso: basta baixar os ebooks gratuitos, assinar algumas newsletters, ler alguns blog posts.
  2. Criar uma página no Facebook ou um blog e uma forma de captação de leads, tipo o MailChimp.
  3. Criar um ebook como isca e usar isso pra construir autoridade digital.
  4. Vender um curso, seja como produtor ou só como afiliado.

E por que eles conseguem fazer essa venda?

Aí entra a outra parte:

Copywriting: a arte de construir e vender sonhos

O marketing digital é vendido como solução dos problemas de qualquer um. Especialmente em canais no YouTube, como o do Eu sou Elias, o que era pra ser uma estratégia de divulgação de produtos e serviços se torna a viabilização de um sonho.

E isso funciona porque os gurus incorporam a figura de bem sucedido. O próprio Elias, do canal acima citado, anda com carros luxuosos, mora em uma mansão e sempre conta como ele saiu das dívidas e fez sua vida com o copywriting e o marketing digital.

A história de quando ele era pobre cria o fator de identificação com o público, composto por gente pobre. A imagem que ele tem hoje é a projeção que o público tem do futuro, sendo portanto um público pobre e sonhador que espera que, seguindo os passos do guru, se tornem tão “bem sucedidos” quanto ele.

Não é que nada disso seja mentira, nem tô dizendo que ele é um charlatão (se é, não sei). Pode ser que ele tenha mesmo saído das dívidas, e eu nunca duvidei dele nos vídeos em que vi. Ele tem um conteúdo muito massa pra compartilhar.

Mas o que alguns gurus do marketing vendem não se sustenta: eles vendem sonhos que se concretizarão com o marketing digital, mas só será dessa forma se os alunos também venderem marketing digital, que é um dos nichos mais lucrativos atualmente.

Isso por causa dos infoprodutos, aos quais os aprendizes se afiliam até terem autoridade suficiente para se tornarem produtores.

Uma empresa que vende motopeças não vai ficar milionária com o marketing digital. É só uma estratégia. O milhão só vem de nichos altamente lucrativos, sendo que hoje o maior é o próprio marketing.

Da mesma forma que coachs ganham muito mais dinheiro vendendo cursos de coaching do que atuando como coachs; da mesma forma que escritores ganham muito mais ministrando palestras sobre escrita criativa do que escrevendo (mas sobre esse caso, especificamente, eu falo em outro texto).

E é assim que se satura um mercado.

O que poderia ser uma estratégia que ajuda negócios a prosperarem no meio de uma concorrência bizarra, acaba virando o próprio produto e se mantendo dessa maneira.

Isso não se sustenta a longo prazo. Esse é o pior problema.

Coaching, empreendedorismo e marketing digital: a história se repete

Pra entender isso, é só ver o exemplo do coaching.

Coaching é uma metodologia baseada em perguntas, utilizando o questionamento socrático pra ajudar pessoas a atingirem suas metas e objetivos de vida. E pronto.

Só que é muito difícil fazer alguém que não seja muito rico pagar por um processo de coaching, que é bem mais caro que terapia. O público é limitado.

A forma que o coaching passou a ser vendido estimulou a própria defasagem do mercado:

O coaching se tornou não uma metodologia que te ajuda a atingir metas, mas sim a SOLUÇÃO pra profissionais desvalorizados ou desempregados para cobrarem mais por seus serviços e conseguirem uma renda maior.

O psicólogo não pode mais ser só psicólogo, porque os profissionais da psicologia estão ganhando muito pouco. Mas não tema, meu amigo: basta se tornar um master coach em dois dias que você poderá cobrar um valor monstruoso pelo trabalho que você estudou quatro anos para executar.

E aí o psicólogo continua sem ter clientes, ou tem poucos. E percebe que ganharia muito mais de outra forma: criando sua própria formação de coaches.

Assim, ele coloca ainda mais coaches formados em um fim de semana na rua, pra venderem mais formações de fim de semana.

Além de não ser nem ético vender sonhos que não vão se concretizar, o mais bizarro é ser um tiro no pé dos próprios profissionais:

Mais profissionais no mercado, mais concorrência, mais cursos malucos e mais necessidade de se diferenciar de outros profissionais.

E hoje, poucos anos depois da onda começar, o coaching está perdendo seus resquícios de credibilidade. Não por ser uma metodologia ruim, mas por ter sido vendido por profissionais desqualificados que transformaram isso tudo num câncer onde todos precisam ser coachs para atingir os próprios objetivos.

Vejo que a mesma coisa acontece com o marketing digital e empreendedorismo atualmente. Ambos são nichos altamente lucrativos que se tornaram o próprio produto.

O marketing digital, da forma como tem sido feito, vai durar pouco tempo.

Qualquer idiota hoje fala sobre marketing digital (vide este que vos fala). Em pouco tempo as pessoas não verão mais diferença entre profissionais bons e ruins, por ambos se venderem da mesma forma. Marketing digital já é algo banal.

Aí o marketing digital, que é de fato uma solução para algumas empresas, vai se tornar só um produto que promete altos lucros, mas que não dá mais lucro porque absolutamente todos já estão ocupados vendendo o mesmo produto.

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